Por Ricarda Canozo 19h42
De mala na mão e destino incerto, chega um cearense em São Paulo. Pára num bar e come duas coxinhas. Sem dinheiro, paga com seu trabalho, lava a louça e limpa o chão. O dono do boteco lhe ensina os segredos da cozinha. Mas, as demais artimanhas, Raimundo Nonato (João Miguel) atribui ao talento culinário, representado na estrela tatuada em seu braço. O protagonista melhora a coxinha do bar e atrai mais fregueses. Uma parábola brasileira acerca do poder é apresentada pelo filme Estômago.
“O cara acabou de chegar da roça e quer salário, benefício...”. O quartinho inóspito no fundo do bar e a comida “gratuita”, não resolveriam os problemas de Nonato. Até que conquista pelo sabor de seu tempero, o alecrim que põe na carne de panela, um novo restaurante, cujo dono zelava pela alta culinária e ambiente familiar.
As coxinhas do velho emprego se transformaram em uma paixão, Íria (Fabíola Nascimento), a prostituta que ele conquista pelo estômago e pede em casamento. Ela não sabe cozinhar, mas adora comer. “Se eu soubesse cozinhar igual a você, eu tava em outra vida.” A meretriz tem fome desde que nasceu: “desde que eu nasci não passou mais.”
Com trilha sonora suave, o filme exprime nos sons três prazeres da vida postos em cena: comida, sexo e poder. Entre assovios, violinos, violões, flautas, acordeom, sax, piano, violoncelo e outros, os prazeres são saciados repetida e incansavelmente.
Em narrativa alinear, do começo para o fim e do fim para o começo, o filme vai revelando a trajetória do cozinheiro em ascensão que acabou indo para a cadeia.
Na cidade cearense onde nasceu São Raimundo Nonato, as mães que morrem ao dar à luz transmitem, por costume, o nome do santo aos filhos. Não poderia ser diferente, a mãe dele morreu no parto, o médico “no apuro da situação enfiou a faca na barriga dela e tirou o moleque vivinho”, eis aí mais um Raimundo Nonato.
Porém, na cadeia nome de santo não iria funcionar. E foi então que ele adotou o nome de Nonato Canivete. Não pegou! Lá, chamaram-no de Alecrim, porque gostava do tempero, “essa erva, mais pimenta-do-reino melhora qualquer comida.” Cozinheiro como se identificava, seus temperos favoreceram o carisma e a posição entre os companheiros de cela, rendendo-lhe poderes e novos aliados.
“Hoje é carne moída, ontem foi picadinho, anteontem bife. Quer dizer, aproveitar bem aproveitadinho a carne eles sabem. Isso é coisa de quem entende o dia-a-dia da cozinha.” Sexta-feira deveria ser peixe, “já que chegam os peixes frescos no mercado.” Mas na cana não tem peixe. “Bicho na comida tem, bicho é todo dia.” Mas o Alecrim dá um jeito.
Em vez do que se vê na maioria dos filmes que apresentam a realidade das penitenciárias de forma chocante e dolorosa, no filme Estômago, sob direção de Marcos Jorge, a vida na instituição aparece reproduzindo as relações de poder da sociedade na qual se insere, de forma divertida e hilariante. E se alguém manifesta o descontentamento logo se ouve um “vai pro hotel” ou “manda chamar o garçom”. Se as formigas entram pelo nariz e atrapalham o sono: “mastiga e engole”. Ou então frita com farinha bem refogadinha, “vai ficar uma delícia. Tem até proteína”. A comida de Nonato temperava o sofrimento.
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