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09.09.2011

Um distrito em colapso

Por *Marilena Furlaneto - CP

Mais uma vez a população de Barão Geraldo se viu refém de atividades programadas para acontecer no distrito, cujos organizadores simplesmente ignoram as palavras respeito e planejamento. Sofrendo nos últimos anos uma transformação brutal em suas características originais – com a proliferação de condomínios, comércio, pensões e repúblicas de estudantes, empresas e universidades, em sua grande maioria edificados sem a contrapartida de infraestrutura suficiente para suportá-los – o distrito vem colapsando em termos de serviços e sustentabilidade, palavra esta que deveria estar sendo reverenciada sobretudo em uma comunidade tão eclética e esclarecida como a que ali habita.

Na última sexta-feira a população local - e mais os milhares de pessoas que ali estudam, trabalham ou buscam atendimento médico-hospitalar – foi surpreendida com um tráfego intenso de veículos, muito acima da capacidade de suas ruas e avenidas. O enorme congestionamento começava ainda na Rodovia D. Pedro e no Tapetão, atrasando em várias horas os afazeres do dia, por conta dos 900 ônibus e vans que foram colocados a caminho da Universidade de Portas Abertas -UPA - da Unicamp. Enormes filas de ônibus se formaram na principal avenida de acesso ao campus universitário, que ali mesmo estacionaram, pois não havia condições de adentrar a área destinada aos estacionamentos.

Junto com o crescente número de estudantes que ingressam na Unicamp anualmente, aos livros e esperança de progredir em uma carreira profissional, se juntam seus carros. Salta aos olhos a degradação das residências do bairro Cidade Universitária, antigamente pródigas em jardins e cuidados, atualmente abarrotadas de carros nas garagens, onde gramados e plantas dão lugar a cimento e garagens que abrigam quatro, cinco, sete ou até dez carros cada uma! E ainda se pergunta porque temos tantos alagamentos quando chove muito!

Falta conscientização por parte das próprias universidades aos seus alunos da necessidade de diminuir o uso do transporte individual, caro e poluente, e de incentivar meios de locomoção mais sustentáveis, como as bicicletas - ou até mesmo o “carpool” tão utilizado em países mais desenvolvidos, que nada mais é que a antiga carona, para diminuir os congestionamentos nas grandes cidades.

Mas no Brasil dá-se o contrário. Anda-se na contramão do resto do mundo. Aqui se incentiva os guetos, os condomínios, onde se paga caro pela falsa sensação de liberdade e segurança. Incentiva-se a degradação de bairros estritamente residenciais – como o Cambuí e a Cidade Universitária – em nome da sanha da especulação imobiliária. Incentiva-se o transporte individual em detrimento de investimentos públicos em transporte coletivo de qualidade. Incentivou-se o fim dos trens, que transportavam cargas e passageiros com maior segurança, em favor das rodovias e dos carros e caminhões que tanto matam nas estradas brasileiras. A indústria automobilística, decadente em países desenvolvidos, nada de braçadas no Brasil e em países em desenvolvimento. Por quê será?

O final de semana em Barão Geraldo, com engarrafamentos e congestionamentos que lembraram a capital paulista, é apenas um prenúncio do que irá acontecer constantemente, em muito pouco tempo, caso não se adotem medidas urgentes para compensar o inevitável impacto de vários grandes empreendimentos programados para o distrito, além dos inúmeros condomínios. Já há áreas do bairro em que antigas residências foram transformadas em alojamentos de peão de obras.

Antes que seja tarde demais, não apenas Barão Geraldo, mas toda a cidade de Campinas carece de políticas urgentes, sustentáveis, de expansão e desenvolvimento. Políticas que privilegiem o homem e não as posses. Que privilegiem calçadas e não estacionamentos. Políticas que privilegiem ônibus, trens e metrôs e não os veículos de transporte individual. Políticas que privilegiem e respeitem, em primeiro lugar, quem nasceu e vive desde sempre no bairro ou na cidade, que tem aqui suas raízes e a família, e não os que chegam na última hora, forasteiros interessados apenas no lucro fácil e rápido.

Faltou à Unicamp, neste episódio, um pouco mais de respeito ao seu entorno e aos contribuintes que a mantém em última análise com os seus impostos. Salvem Barão enquanto é tempo!

*Marilena Furlaneto é jornalista, moradora de Barão Geraldo e consultora em comunicação nas empresas.

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